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Projeto agrega valor e leva desenvolvimento para a Região do Baixo São Francisco

 Por Jamylle Bezerra e Madysson Weslley

Quilo da pimenta rosa, que era vendido a R$ 1,50, passou a ser comercializado a R$ 300 COMENTE

Pimenta rosa tem garantido renda a centenas de famílias

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Um projeto inovador tem modificado a vida de centenas de famílias que vivem na Região do Baixo São Francisco, nos estados de Alagoas e Sergipe. De beneficiárias de programas sociais, elas passaram a ser responsáveis pela produção de uma iguaria que tem recebido elogios de chefs de cozinha renomados. Desenvolvido pela ONG Ecoengenho, o Projeto Aroeira agregou valor à pimenta rosa e transformou a atividade extrativista predatória em exemplo de sustentabilidade. O quilo do produto, que antes era comercializado a R$ 1,50, hoje já passa dos impressionantes R$ 300. A consciência ambiental aliada à tecnologia para exploração do fruto da aroeira tem garantido renda e levado o desenvolvimento para pequenas cidades.
Em Alagoas, o projeto é executado nos municípios de Piaçabuçu e Penedo. Já em Sergipe, a pimenta rosa vem sendo produzida em Santana do São Francisco e Neópolis. Nos dois estados, há cerca de 500 extrativistas cadastrados. Eles fazem parte da Associação Aroeira, montada para que todas as pessoas pudessem trabalhar de forma organizada, respeitando o meio ambiente e recebendo de forma justa pelo que produz.

Os exemplares de árvores da aroeira, nativos da região, estavam sendo explorados de forma incorreta e, aos poucos, começavam a desaparecer. Agora, com o manejo adequado, a produção tem sido cada vez maior, especialmente entre os meses de maio e setembro, época de safra. De acordo com o diretor-presidente da ONG Ecoengenho, José Roberto Fonseca, a busca por uma atividade extrativista sustentável começou em 2010, quando foi descoberta a exploração de Aroeira na Foz do São Francisco.

Beneficiamento da forma adequada agregou valor à pimenta rosa

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“Começamos a analisar as condições tecnológicas, econômicas e sociais dessa cadeia produtiva. Foi quando resolvemos apresentar um projeto ao edital público do Programa de Desenvolvimento e Cidadania da Petrobras e conseguimos o patrocínio. Existia na região um extrativismo predatório da aroeira a partir de uma demanda de empresários do estado do Espírito Santo. Essa exploração era desenvolvida sem nenhum critério ambiental, resultando na depredação das árvores e em uma queda brutal da produtividade a cada ano. Além disso, havia também uma exploração social das populações extrativistas da região, tanto do estado de Alagoas como no de Sergipe, com uma remuneração irrisória desse produto pelo total desconhecimento das populações locais sobre o uso da pimenta rosa e seus valores de mercado em âmbitos nacional e internacional”, destaca.

Beneficiamento da pimenta rosa agregou valor ao produto

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Além da mobilização dos extrativistas para que participassem de uma capacitação adaptada ao público com baixa escolaridade, foi também criado um plano de beneficiamento do produto que faz uso de energias renováveis e de equipamentos adequados. As famílias foram orientadas, entre outras coisas, a prezar pela higiene durante a manipulação da pimenta rosa. O resultado foi um aumento significativo do valor de venda, que passou de R$ 1,50 para R$ 300. Um crescimento de 2000% em poucos anos.”O projeto tem como fundamento a agregação de valor e não a escala de produção. A intenção não era a de ser o maior produtor de pimenta rosa da Região ou do Brasil, mas, sim, a de produzir a melhor pimenta rosa do Brasil. De toda forma, em nosso Plano de Negócio, avaliamos em cerca de 20 toneladas/safra a produção da região da Foz do São Francisco e montamos uma Unidade de Beneficiamento modular para operar, inicialmente, com algo em torno de 2 toneladas/safra”, afirma José Roberto.

Associação agrega centenas de pessoas no Baixo São Francisco

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O presidente da ONG Ecoengenho diz desconhecer o funcionamento de uma ação semelhante em outro lugar do país. Segundo ele, o projeto Aroeira promoveu a quebra de paradigmas na linha de inclusão socioprodutiva calcada, quase que exclusivamente, em produtos de subsistência e tecnologias tradicionais para mercados locais.

“Nossa ideia não era apenas mitigar a fome ou garantir segurança nutricional. O modelo proposto é para ir além da subsistência, é fundamentado em produtos de alto valor agregado produzido por pobres para vender para os ricos. Não consigo entender como haverá inclusão social se não houver geração de renda”, fala José Roberto.

REFRESCANTE E ADOCICADO

A combinação de sensações proporcionada pela pimenta rosa tem chamado a atenção de chefs de cozinha de todo o país. Segundo José Roberto, o sabor diferenciado deve-se não apenas às características climáticas da região onde o produto é colhido, mas também à tecnologia de beneficiamento utilizada e às estufas termo-solares desenvolvidas pelo Projeto Aroeira.

Além de Alagoas e Sergipe, a pimenta rosa também tem sido utilizada na Bahia – para uso industrial –  e em restaurantes situados nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Fortaleza. Atualmente, há uma negociação em andamento com uma empresa estrangeira para exportação do produto para a Espanha.

Chef Tatiana Brasil faz uso da pimenta rosa em seus pratos

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A chef Tatiana Brasil afirma que a pimenta rosa produzida em Alagoas tem um diferencial. “Ela é bem melhor que outras pimentas produzidas em outros estados do país porque a associação de onde eu compro a pimenta tem um sistema para secar o grão diferente e com isso ela não solta a casca, tornando-se muito mais atraente para a decoração de alguns pratos”, observa.A pimenta rosa é usada por Tatiana na elaboração de diversas delícias, como o camarão com molho gruyère e pão sírio com carne de sol. Por não apresentar alto teor de ardência, costuma ser muito bem aceita pelos clientes. “Uma das principais características da pimenta rosa é aromatizar os pratos. Ela é saborosa e serve também para embelezar a comida”, revela.

Para ela, usar a pimenta alagoana agrega valor aos pratos. “Vários chefes do mundo inteiro fazem uma campanha para o uso de produtos da própria região, pois isso faz com que a matéria-prima não sofra, por exemplo, com o transporte, o que melhora a qualidade e conserva o frescor, além de movimentar a economia local”, diz.

O Chef Wanderson Medeiros também reconhece a qualidade da pimenta rosa produzida em Alagoas. “Eu já conhecia a aroeira. Inclusive, confesso que trazia ela de fora do país, sendo na verdade a pimenta rosa produzida no Brasil, mais precisamente no Nordeste, que era processada no sudeste e comercializada com outros países. Era um produto de péssima qualidade, pois a matéria-prima não era selecionada e o preço ainda era muito mais alto”, relembra.

Chef Wanderson Medeiros diz que chegou a importar produto

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Em relação ao uso da pimenta rosa na elaboração dos pratos, Wanderson conta que embora a aceitação seja muito boa, alguns clientes não se agradam do sabor. Para incrementar ainda mais a comida produzida, ele diz que além de usar a pimenta in natura, passou a processá-la e transformá-la em pó, a exemplo de especiarias como a noz moscada e a pimenta do reino. “Com isso, ela passa a ser mais apreciada já que dá sabor ao prato sem ser servida inteira”.

O chef diz que o segredo do produto está em saber usá-lo. “A pimenta rosa, mesmo sem o sabor característico de outras pimentas – costumo dizer que ela nem pimenta é,  justamente por não arder – deixa os pratos mais bonitos e mais saborosos, pois ela tem um gosto muito específico”. O chef costuma usar a especiaria em saladas, peixes, carnes e aves e já chegou a servi-la numa combinação com sorvete de rapadura, em um congresso na cidade de São Paulo.

Empoderamento das mulheres também é resultado do Projeto Aroeira

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MUDANÇA DE VIDA

As transformações no dia a dia da população que vive na Região do Baixo São Francisco e que agora tem uma renda proveniente do trabalho são visíveis aos olhos de qualquer um. Com o conhecimento adquirido com o projeto, as famílias ganharam um empoderamento que antes não existia, dependentes que eram do Bolsa Família. Agora, elas sabem argumentar sobre meio ambiente, tecnologias, gestão de negócios, associativismo e mercado. E o melhor de tudo: colocam todo o conhecimento em prática, superando resultados e garantindo uma produção de pimenta rosa que vai além das expectativas.

O incremento da renda também trouxe conforto. Muitas famílias melhoraram suas moradias, investiram em pequenas propriedades rurais e na compra de animais, realizaram o desejo de ter um meio de transporte, celulares, aparelhos de TV e outros eletrodomésticos e eletrônicos. Há também o lado da vaidade. As mulheres estão mais bonitas, mais donas de si, com uma autoestima elevada, investindo parte do que ganham em salões e produtos de beleza – o que mostra uma elevação do padrão de vida.

Pimenta rosa melhora qualidade de vida de alagoanos

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Rita Paula dos Santos Ferreira, de 31 anos, é um dos exemplos de como a pimenta rosa mudou a realidade dos moradores da região. Durante muito tempo viveu um relacionamento conturbado, no entanto, por depender totalmente do ex-companheiro se via obrigada a continuar ao lado dele, inclusive, por questões de sobrevivência. Após iniciar a atividade como extrativista, descobriu que poderia seguir sua vida sem o homem que a causava tanto mal. Hoje, bem mais feliz e segura, ela não só é mãe de três filhos e dona de sua própria casa, como acumula a função de presidente da Associação Aroeira.”Tenho meu trabalho, com isso conquistei minha autonomia, passei a ter meu próprio dinheiro e a sustentar minha família sem depender de um companheiro que não sabia me valorizar. Esta situação não é exclusivamente minha, outras colegas também mudaram radicalmente de vida depois que iniciaram os trabalhos com a pimenta rosa”, diz orgulhosa a agricultura, que concluiu o ensino médio.

Aroeira é uma planta nativa da Região do São Francisco

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A presidente informa que após a fundação da Associação Aroeira os extrativistas da Foz do São Francisco passaram a ser muito mais organizados e a desenvolver o trabalho de uma maneira mais eficaz, principalmente no período de maior produção da especiaria. “Atualmente, a associação tem capacidade para beneficiar cerca de 3 mil quilos da pimenta rosa durante a safra. E quando não está no período da colheita, as mulheres extrativistas da comunidade não param, trabalhando com outros produtos como o jenipapo, o cambuí, o ingá, o gajiru e o camarão”, explica.Ela conta que a maioria dos associados são mulheres. Empoderada, Rita Paula afirma que a transformação nas vidas destas pessoas foi bem maior que meramente financeira. A pimenta rosa despertou em todas elas a certeza que são capazes de construir uma comunidade mais forte e desenvolvida. “Antes das capacitações que nós participamos, houve época da pimenta ser vendida ao atravessador por R$ 0,50 centavos o quilo. Nós não tínhamos noção de que um dia este mesmo produto, após o beneficiamento, seria comercializado por muito mais”, revela. Hoje, uma caixa contendo 40 potinhos de pimenta rosa com 30 gramas cada é vendida, em média, por R$ 240,00.

“A nossa vida mudou. Já teve quem fizesse reformas em casa, comprasse veículos e apostasse na criação de animais como complemente de renda. Sem dúvidas a pimenta rosa, com tudo que ela nos trouxe, é a grande responsável pela transformação social da nossa região”, pontua Rita.

*Colaborador

Pimenta rosa tem garantido renda a centenas de famílias

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