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Há 65 anos, morria Charles Miller, considerado ‘o pai do futebol’ no Brasil

O brasileiro foi o responsável por trazer as regras do esporte ao país. O que poucos sabem é que ele também criou drible conhecido como ‘chaleira’.

Charles Miller é tido como o pai do Futebol. Foto: reprodução (Crédito: )

Charles Miller é tido como o pai do Futebol. Foto: reprodução

Por Évelin Argenta

Quando a primeira partida de futebol, como o conhecemos, foi disputada no Brasil em abril de 1895, ninguém imaginava que aquele seria o produto brasileiro mais valorizado no planeta. Aquele jogo ocorrido há 123 anos, no Brás, em São Paulo, sempre será lembrado como o mais importante da vida de Charles Willian Miller, o pai do futebol no Brasil. Quem confirma o que “a lenda reza” é o jornalista e historiador Marcos Guterman:

“Ele é o cara que se identifica como aquele que organizou o futebol com as regras que a gente conhece. Há registros de marinheiros, principalmente ingleses, jogando futebol nos descampados onde eles estavam instalados. Mas é legítimo, sim, atribuir o futebol com as regras ao Charles Miller.”

Charles tinha 20 anos quando, em 1894, voltou de uma viagem de estudos à Inglaterra. Desembarcou no Porto de Santos trazendo bolas de futebol, uma bomba para enchê-las e um livro de regras debaixo do braço: eram as primeiras normas do esporte, que são, praticamente as mesmas, até hoje.

No Brasil, mais precisamente, em São Paulo, o jovem Miller encontrou um terreno fértil para a nova prática e logo tratou de organizar a primeira partida. A história foi contada pelo próprio Charles pouco antes de morrer, em uma entrevista em 1952, na revista “O Cruzeiro”:

“Numa tarde fria de outono, reuni os amigos e convidei-os a disputarem uma partida de futebol. Aquele nome por si só, era novidade, já que naquela época só conheciam o críquete. Perguntaram como era o jogo e com que bola se jogava. Eu tinha a bola, só era preciso enchê-la”.

O jogo reuniu os funcionários, na maioria estrangeiros, da “The Gas Works Team”, formado por funcionários da companhia de gás, contra “The São Paulo Railway Team”, formado por funcionários da companhia ferroviária. E assim surgiu a primeira partida de futebol: na elite operária paulistana.

“E você vai ter, então, essa gente jogando futebol. Era um esporte totalmente amador e orgulhosamente amador. Existia uma coisa muito forte com o fair play, com o cavalheirismo. Tanto é que, quando começam as vaias nos jogos com grande público, os jornais da época criticam. Afinal, isso não é coisa que cavalheiro faça”, conta Marcos Guterman.

Na primeira partida, dois dos quatro gols da vitória da “The Gas Works Team” foram feitos por Miller, que é apontado como o primeiro grande craque brasileiro. O talento dele era mesmo dominar a bola. Miller foi um dos primeiros a usar o calcanhar. O seu lance característico é executado até hoje: a “chaleira”. É isso mesmo. O nome não tem nenhuma relação com o utensílio doméstico. A “chaleira” só se chama “chaleira” por causa de Charles.

“A ‘chaleira’ vem do nome ‘Charles’. Ele puxava a bola com a parte de trás do pé, passava por cima da cabeça e pegava ela na corrida. Então, como não tinha nome, no começo chamavam de ‘Charles’. Com o passar do tempo houve um ‘aportuguesamento’ e virou ‘chaleira'”, conta o historiador inglês John Mills.

Mills, que mora em São Paulo desde 1963, se dedicou a conhecer o pai do futebol. Ele é, possivelmente, a pessoa que mais sabe da vida de Miller no Brasil. É dele a biografia do “pai de futebol”, lançada em 2005. Nela, John conta como surgiu a jogada repetida até hoje.

O pai da chaleira, o pai do futebol, o craque, o artilheiro, o técnico, o cartola Charles Miller morreu há 65 anos, em 30 de junho de 1953, aos 79 anos. Ele não teve tempo para comemorar o primeiro título mundial da seleção brasileira, mas assistiu à conquista do futebol pelas massas a partir da década de 1930. E hoje Charles será que aprovaria o futebol da Copa de 2018? Para o biógrafo John Mills, não há a menor dúvida:

“O que ele fez foi muito importante e uma das sementes do futebol como é hoje e dos cinco campeonatos mundiais de futebol que o Brasil tem. Acho que onde ele estiver, ele está feliz”.

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